quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

O Mito da Caverna e os Meios de Comunicação



O Mito da Caverna, escrito por Platão no Livro VII, da República, traz a narrativa do diálogo de Sócrates com Glauco e Adimato, onde Platão discute sobre a teoria do conhecimento e narra a história de prisioneiros de uma caverna que, acorrentados desde sempre, acreditam na realidade das sombras que passam em frente as chamas da luz de uma fogueira. Contudo, em determinada ocasião, um deles consegue se libertar e sair da caverna, descobrindo então a realidade e tendo acesso ao conhecimento do mundo que o cerca. Entretanto, ao retornar à caverna com o intuito de literalmente libertar seus colegas, estes não aceitam o que ouvem e acabam com a vida do prisioneiro que havia se libertado.


É de se concluir que os prisioneiros estavam mais presos às suas crenças e medos do que às suas correntes, haja vista que passaram tanto tempo a ver sombras que não aceitaram a possibilidade de existir realidade diversa da que conheciam e onde se sentiam confortáveis.


A alegoria da caverna nos mostra que o pensamento de Platão divide o mundo em duas realidades, quais sejam, a sensível, que traduz o mundo da imperfeição, pois é percebida pelos sentidos; e a inteligível, que traduz o mundo das ideias e vai de encontro à verdade possível para o homem. Quer dizer que todo homem deveria ir em busca do mundo da verdade para chegar ao bem maior da vida, almejar o conhecimento das realidades que o cercam, a fim de não serem enganados com a transitoriedade dos sentidos.


De tal forma, transportando a alegoria da caverna para os dias atuais, podemos questionar quais são as cavernas com as quais nos envolvemos e nos aprisionamos pensando serem verdade.


Talvez estejamos vivendo a era da manipulação e alienação linguísticas, achando que somos livres em meio à tanta facilidade de comunicação e democracia. Talvez somente estejamos acorrentados, mas agora com maior variedade de sombras a nos iludir.


Diante de tal reflexão, podemos dizer que atualmente os meios de comunicação são os detentores do poder e quem possui poder garante o resultado da ação do outro. Do outro que acredita na sombra que vê, sem questionamentos.


Assim, os meios de comunicação ditam valores, manipulam o inconsciente coletivo e ditam comportamentos. Uma reportagem por exemplo, muitas vezes pode ser tendenciosa, revelando apenas recortes e não os fatos em sua totalidade, somente o que lhe é conveniente, em consonância com seus interesses e a grande massa acredita, sem qualquer reflexão, trazendo à baila o contraste entre o conhecimento da verdade e a informação ilusória e manipuladora. 

Outrossim, pode-se dizer que as novelas também distorcem a realidade, já que ditam modismos e produzem gêneros, fazendo com que as pessoas reproduzam comportamentos sem perguntarem a si mesmas se tal atitude faz parte de sua verdade ou não. As pessoas não conhecem a sua verdade, não são sua própria referência, então seguem vendo as chamas da caverna, mas sem enxergar que há um mundo fora dali.


Por outro lado, podemos pensar que os meios de comunicação trouxeram evolução, assim como as redes sociais, mas será que o problema está no instrumento ou em quem o recebe e conduz?

Será que o problema está na forma como o homem se limita justamente por não se conhecer e se conformar com as migalhas que lhe oferecem? As correntes invisíveis que os modelos e a inconsciência de si lhe impõem.


Quando pensamos em meios de comunicação podemos associar tal ideia ao dinheiro e ao poder, que estão sempre ligados à manipulação, pois movem o nosso sistema, controlam a realidade que desejam que o homem acredite como única possível. De tal modo, não há interesse no despertar da consciência das pessoas. Nesse ponto, podemos dizer que o papel das redes sociais pode assumir duplo sentido, alienando ou despertando as pessoas. O que você escolhe?


Talvez o mito da caverna tenha muito a ver com filmes como Matrix e A Ilha, assim como com a obra de George Orwell, 1984, onde o “Estado” dominava a sociedade de diversas formas, sendo uma delas a proibição da escrita, impondo um vocabulário denominado “novafala”, onde constantemente o nome das coisas era modificado, assim como o sentido, as palavras eram reduzidas para que as pessoas não pudessem se manifestar e desta forma o controle sobre elas era cada vez maior até chegar a sua totalidade.


Posto isso, pode-se dizer que a realidade distorcida é ausência de razão e de auto conhecimento. Opinamos e julgamos, mas sem passar pelo crivo do mundo inteligível, somos reféns das emoções. Não sabemos dosar os mundos e tirar o melhor deles. Vê-se o mundo pela óptica de outras pessoas.


A ausência de reflexão e busca pela verdade faz com que os que estão na caverna acreditem que estão seguros na luz das chamas da fogueira, o que causa inércia de questionamento e faz as pessoas se acharem vítimas e desejarem receber um mundo sempre pronto, assim como é a caverna. Na realidade se tornam vítimas de si mesmas e do sistema, assim, os meios de comunicação e os detentores do poder se aproveitam da lacuna que as pessoas têm de si mesmas.


Ainda hoje, grande parte da sociedade é prisioneira da caverna, e olha para aqueles que fogem do sistema e do controle e os julgam, os “matam” com críticas e julgamentos. O sistema tenta abafá-los manipulando informação contra eles. A grande massa social quer que todos fiquem dentro da caverna a fim de se sentirem seguros em seu mundo de sombras.


Em suas cavernas, os prisioneiros têm medo da mudança, são cômodos e vivem apoiados em uma falsa segurança, no conhecimento raso e ilusório.


Assim, o mito da caverna é tão atual quanto toda a tecnologia que nos cerca.


A sociedade vem, ao longo da história, lutando por liberdade, mas será que sabem o que fazer com essa liberdade? Será preciso caminhar em tal busca sob o solo da verdade e do conhecimento real.


Será que nessa busca pela liberdade e confusão de valores, não estamos voltando para a caverna a fim de observar as sombras?


Vivemos o tempo dos excessos para aliviar ansiedades, verdades e responsabilidades, pois, o conhecimento é um caminho sem volta e talvez, quanto maior seja a evolução, maior seja a solidão e o homem ainda não saiba viver bem consigo mesmo e por isso ceda à companhia, ilusões e ideias dos colegas prisioneiros da caverna.


O quanto ficar preso às correntes da caverna é conveniente?


As redes sociais hoje, trazem a falsa condução ao mundo das ideias, pois mobilizam grande potencial, mas também exercem controle e manipulação. É preciso estar sempre atento. Utilizar as chamas da fogueira da caverna para iluminar os próprios passos rumo à verdade.


Isso porque, temos excesso de informações e opiniões, mas falta de conhecimento e sabedoria. O homem vem caminhando através da informação enquanto a vida acontece em algum lugar onde ele não consegue levantar os olhos para contemplá-la e participar efetivamente do processo.


A porta da caverna sempre estará aberta. O homem não pode se entregar aos extremos, deve buscar e encontrar o ponto de equilíbrio entre a consciência de si mesmo e daquilo que o cerca. Entender o limite e ir além dele. 
Aprender a olhar o real diferente dos outros, a fim de ser sua própria referência e sua própria chama, ser a luz e a sombra a iluminar os próprios passos na busca da verdade e da evolução.


Mas, afinal... estamos fora da Caverna?


Caminhemos.

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